“Da medicina antiga à geriatria e gerontologia modernas: o cuidado com a velhice através dos tempos”
Caminhos
do Envelhecer
“Da medicina antiga à geriatria e gerontologia modernas: o cuidado com a velhice através dos tempos”
O
envelhecimento, um fenômeno tão antigo quanto a própria humanidade, sempre foi
objeto de interesse e discussão. Mesmo nos primeiros registros médicos,
evidências sugerem que as pessoas já se esforçavam para aliviar dores
corporais, aumentar o vigor, diminuir a fraqueza e compreender a importância de
envelhecer.
Esse
contexto se transformou ao longo dos tempos, caminhando da sabedoria empírica
dos povos antigos até o reconhecimento da geriatria e da gerontologia como
campos de estudo científico no século XX. Essa trajetória demonstra que olhar
para a velhice nunca foi apenas cuidar da saúde física, mas também de reafirmar
o espírito de humanidade da sociedade.
Em
sua famosa obra "Aforismos", Hipócrates, frequentemente chamado de
"pai da medicina", observou como o corpo muda com o passar do tempo.
Ele descreveu o declínio da força, alterações na digestão e na respiração,
buscando compreender o envelhecimento como um aspecto natural da existência.
Pouco tempo depois, o médico romano Galeno expandiu esse conceito, discutindo
os comportamentos e temperamentos associados aos diferentes estágios da vida.
Em
muitas culturas, com o passar dos séculos, o envelhecimento foi visto mais
através da lente da filosofia e da religião do que de perspectivas científicas.
O cuidado dos idosos foi visto de maneira quase exclusiva como um dever da
família, principalmente realizado e assumido por mulheres, e pela comunidade.
Mas no início do século XX, esse contexto entrou em forte transformação.
Em
1909, o médico austríaco Ignatz Nascher propôs o termo geriatria, inaugurando um
novo ramo da medicina voltado para as necessidades da saúde da população idosa.
Nessa mesma época, a gerontologia começou a se desenvolver como uma ciência multidisciplinar,
que estudava o corpo e suas doenças, a mente, assim como o aspecto social e
psicológico do envelhecimento.
O
campo da gerontologia, por exemplo, tem acompanhado uma mudança paradigmática
muito forte, onde o envelhecimento deixou de ser visto apenas como um processo
biológico e passou a ser compreendido como uma construção social, passível de
análise científica, planejamento estratégico e intervenção por políticas
públicas.
No
século XXI, uma transformação significativa se concretizou com a introdução do
conceito de envelhecimento ativo pela Organização Mundial da Saúde. Essa
abordagem ressalta a importância de otimizar as chances de bem-estar físico,
envolvimento social e proteção, visando aprimorar a qualidade de vida durante o
processo de envelhecimento. A recente declaração da Década do Envelhecimento
Saudável (2021 – 2030) reforça esse compromisso, convocando governos, a
sociedade e as próprias organizações a implementarem medidas abrangentes que
assegurem a dignidade, a independência e a integração social em todas as etapas
da vida.
No
Brasil, esse avanço se consolidou com a criação do Estatuto do Idoso em 2003,
que estabelece os direitos da pessoa idosa. Desde então, o envelhecimento
passou a ser um tema mais debatido e, de um modo geral, mais multidisciplinar.
Atualmente, o cuidado com a pessoa idosa requer uma visão intersetorial e
multiprofissional que inclui a saúde, proteção, gestão social, inclusão
digital, espaços de convivência, acesso à cultura, exercício da cidadania,
oportunidades de trabalho e educação, justiça social, geração de renda,
participação da comunidade, e cuidados continuados, sejam eles de curta ou
longa duração.
Analisando
esse contexto, percebe-se que envelhecer não se refere a apenas um conceito,
mas a vida. Se Hipócrates e Galeno já intuíram a necessidade de compreender a
velhice e Nascher inaugurou a medicina do idoso, isso nos coloca a
responsabilidade de dignamente, inclusivamente e humanamente, aplicar esses
saberes na vida prática, porque, no fim, cuidar da velhice é cuidar de todos
nós.
Luiz
Eduardo dos Santos
Gerontólogo, Mestre em Gerontologia

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